Uma pessoa que busque adquirir cultura, pode acabar tentada a desfrutar dos clássicos sem uma mentalidade correta, e transformar aquilo que é um deleite - seria até um vício, se fosse algo ruim - em uma experiência traumática. Imagine alguém acostumado a ler apenas notícias e relatórios, que de repente, tome para si o ânimo (thymos) para ler "A Odisseia", de Homero, e dê de cara com estes versos:
Fala-me, Musa, do homem astuto que tanto vagueou,
depois que de Troia destruiu a cidadela sagrada.
Muitos foram os povos cujas cidades observou,
cujos espíritos conheceu; e foram muitos no mar
os sofrimentos por que passou para salvar a vida,
para conseguir o retorno dos companheiros a suas casas.
Mas a eles, embora o quisesse, não logrou salvar.
Não, pereceram devido à sua loucura,
insensatos, que devoraram o gado sagrado de Hipérion,
o Sol — e assim lhes negou o deus o dia do retorno.
Destas coisas fala-nos agora, ó deusa, filha de Zeus.
(tradução recomendadíssima de Frederico Lourenço, disponível aqui)
Deu para entender tudo? Quem é o homem "astuto"? O que significa tal "astúcia"? Quem é a filha de Zeus? O que é uma Musa?
Claro, muitas coisas podem ser presumidas naturalmente, ainda mais em uma tradução tão precisa e cuidada como a de Frederico Lourenço. Entretanto, nem sempre alguém que acabou de sair da Globo News entende por que este texto é tão rico e poderoso.
Outra tentação infelizmente comum é ler literatura tão profunda, acreditando que é uma história longínqua, que nada diz a nós. O famoso "para que ler um livro de 3 mil anos atrás?"
Vamos observar rapidamente a situação que testemunhamos n'A Odisséia. Um homem que foi para a Guerra e, duas décadas depois, ainda não retornou. Seu filho, que era um bebê quando ele partiu, agora tem 20 anos, e precisa cuidar de seu lar - agora, dominado por pretendentes de sua mãe. Penélope, a mãe desolada, tem um misto de esperança no retorno de seu marido guerreiro, e de desolação assumindo que está perdendo o controle sobre seu palácio. Odisseu, preso por uma feiticeira, tem de enfrentar ciclopes, piratas, sereias, naufrágios e a fúria do deus dos mares, que faz de tudo para atrapalhar seu destino.
Parece com algo da nossa vida, perdidos entre boletos e relatórios?
Veja um pouco mais de perto. Nossa sociedade, hoje, tem como marca fundamental o pai ausente. As grandes guerras, além de toda a carnificina, deixaram este triste legado familiar: lares desfeitos por pais que nunca retornaram. Enquanto isso, jovens que foram criados sem uma figura masculina de segurança e aprendizado vêem-se forçados a assumirem a posição de pater familias sem nenhum conhecimento herdado para tal.
A adolescência tardia, conseqüência infranqueável desta situação, fica patente tanto em um jovem de 20 anos que ainda não assumiu seu papel social de homem, quanto em "pretendentes" que invadem sua casa e gastam seus bens, querendo consumir também sua própria mãe. Lembra em algo uma Europa dominada por gangues de refugiados em social care, 3 mil anos depois?
Penélope, aliás, é pensada com desconfiança pelo marido (será que ela lhe é ainda fiel?), pelos pretendentes (quando irá aceitar seu fado e aceitar um deles?) e pelo seu reino. E Odisseu, será que retorna, tantos anos depois que a Guerra acabou? Quantas figuras precisam de um retorno triunfal para resgatar uma ordem social?
Mais do que tudo: A Odisséia pode parecer um livro sobre a viagem de um homem - tão diferente da nossa, enfrentando monstros marinhos e deuses politeístas. Mas sua questão fundamental, eternamente dolorosa, não é apenas o retorno como caminho: é o que perdemos enquanto retornamos. Será que ainda vai se lembrar de seu lar? Sua relação com sua mulher e filho será igual, caso logre chegar a seu destino? A ordem social em Ítaca será preservada, ou até sua ilha será irreconhecível?
É fácil notar como boa parte das questões da nossa vida está sendo enfrentada por Odisseu, na Era do Bronze, 3 mil anos atrás. A Odisséia, então, não é um livro sobre um homem, mas pode ser mais importante ainda a nós.
Para isso existem leituras conjuntas - com especialistas que podem nos ajudar a extrair o melhor dos livros - as minudências que muitas vezes passam despercebidas se não estamos acostumados.
É o convite que faço a você: venha ler A Odisséia conosco, no Clube de Leitura da Formação Senso Incomum hoje. Para todos os inscritos em nossa newsletter, basta acessar o link depois do paywall neste post e venha ler o grande clássico dos clássicos de Homero com Flavio Morgenstern quarta-feira, às 20h30. Não é preciso nenhum conhecimento antecipado: basta acessar o link abaixo, para inscritos em nossa newsletter.