Uma das maiores dificuldades da modernidade é conciliar desejos, ambições e ideologias tão distintos dentro do mesmo corpo social. A política, a arte de gerir a pólis, deveria ser a arte do convívio harmônio entre divergentes – entretanto, nada tem dividido mais as pessoas do que a própria política. Mais do que um diagnóstico estanque, o clima de fragmentação violenta do corpo social parece mais indicar que estamos em uma panela de pressão.
Algumas questões realmente tensas do século XXI podem trazer um tempero ainda mais amargo para esta receita. Pense-se em imigração em massa, a disputa entre liberdade de expressão e regulamentação de algoritmos ou a sociedade “multicultural” tentando reunir feministas e muçulmanos do mesmo lado do espectro político. A resposta apressada à confusão, principalmente ligada à políticas “populistas”, pode apontar o problema, mas não amenizar a cisão interna.
Nunca se falou tanto em diversidade, e nunca tantos diversos pensaram tão roboticamente iguais, como numa linha de produção fordista de pensamentos. Quanto mais se fala em diversidade e mais se preconiza palavras como inclusão ou diálogo, menos as pessoas são capazes de, simplesmente, conviver e conversar. Não há maior desafio sociopolítico contemporâneo do que um algoritmo de rede social ou uma mera mesa de Natal reunindo a família.
A promessa de uma sociedade plural entrega um discurso homogêneo a ser repetido, e qualquer tentativa de alternativa passa a ser tratada como ameaça a todo o sistema – pior do que uma ameaça à vida.
Hoje, está na moda falar do paradoxo da tolerância de Karl Popper – como um regime livre pode tolerar idéias que não sejam livres? A “solução” oferecida nos últimos anos foi a promessa de um “totalitarismo light” até a exclusão de todos os “extremistas”. Bastaria um expurgo completo e viveríamos num paraíso de concordância entre o Femen e o Hamas, com a Democracia Feita Carne regendo a Terceira Sinfonia da Anitta ao fundo.
Antes que alguém se aventure a propor novo totalitarismo para nos deixar livres, podemos nos lembrar de que Aristóteles já havia analisado o problema por todos os prismas possíveis, e respondido perfeitamente o que modernos nunca entenderam. A pergunta está errada, por tentar responder uma questão de filosofia pela via política. Não à toa, Popper foi sempre acusado de ler Aristóteles muito mal e porcamente. Há uma palavra grega que, bem trabalhada, pode resolver a maior parte desta quizomba intelectual.
Este texto está disponível apenas para inscritos
Torne-se assinante para ler o texto e tenha acesso a toda a biblioteca de textos disponíveis apenas para membros.
Cadastre-se agora
Já possui uma conta? Entrar