A história é consabida: Guerra das Malvinas em 1982, gol da “mão de Deus” de Maradona em 1986, a maior rivalidade da Copa além daquela com o Brasil, Margaret Thatcher, vitória militar, derrota no futebol. Quando Inglaterra e Argentina se enfrentam, todos relembram da Guerra das Malvinas, especialmente a torcida da Argentina. Enquanto isso, a outra parcela de seres humanos que não nasceram na Argentina aproveitam o ensejo para demonstrar o quanto desprezam argentinos – nem sempre precisando conhecê-los.
Jorge Luiz Borges, escritor argentino neto de britânicos e que falava inglês em casa, caracterizou o conflito como “uma briga inútil de dois carecas brigando por um pente”. Apenas os próprios argentinos podem ter alguma lembrança positiva de uma das guerras mais sem noção já travadas no planeta.
Mas a história começa bem antes e termina bem depois. Porque Copas do Mundo, parafraseando Clausewitz, tem um pouco de “continuação da guerra por outros meios”. Quando Maradona fez o “gol do século”, esta rivalidade já tinha 20 anos.
Olimpíadas ou Copas do Mundo sempre – sempre, desde a Antiguidade, a Batalha de Maratona e a Trégua Sagrada (Ekecheiria) – foram uma continuidade de disputas que resvalavam para o conflito militar. O que a modernidade trouxe foram novas formas de soft power impensáveis antes, mas para o mesmo tipo de dinâmica: uma glória substituta, uma imagem auto-justificada perante inimigos, um triunfo ou vanglória usado por tiranos para legitimar seu poder.
A geopolítica pode ser bélica ou comercial, mas no terreno da fundamentação, sua arma é simbólica. Seja o Mickey Mouse ou o ópio, a cruz vermelha ou o proletariado, são símbolos facilmente identificados pelo inimigo – ou por uma audiência interessada, da ONU a agentes políticos sensíveis – que acabam ganhando ou perdendo a continuação das guerras, pelo apoio ou reconhecimento internacional.
Só no caso das Malvinas/Falklands, havia décadas que a Inglaterra era o alvo da Argentina, antes de um ditador comprar uma briga que fez boa parte da esquerda abandonar o anticolonialismo.
Mais do que o restante da América do Sul, a Argentina sofreu um enorme (para padrões da época) influxo de europeus no começo do século XX que, além de costumes e valores políticos modernos, também levaram a paixão por um novo esporte, o football inglês. Eram ferroviários e comerciantes britânicos, com um polpudo financiamento de empresários, que fundamentaram um esporte então elitista – os torcedores de futebol iam de terno e gravata assistir a jogadores com camisas sociais. A idéia de um esporte “popular” foi mais imposta por jogadores competentes do que pela elite, que demorou para aceitá-los bem. Se é que, para os hermanos, foram totalmente aceitos.
Argentina e Brasil já começam a se diferenciar no futebol neste momento: aquela tratava seu novo hobby como uma demonstração de pertencimento aos ricos e segregados clubes ligados a uma elite de origem européia, enquanto este aparecia com um esporte barato, praticado pelas grandes empresas urbanas, mas com uma relação muito mais horizontalizada e que abandonou muito mais rapidamente o seu caráter privativo.
Em São Paulo, o time mais popular, o Corinthians, é mais antigo (1910) do que clubes que ganharam sua torcida pela classe média, como Palmeiras (1914) e o rico São Paulo (1930), enquanto no Rio de Janeiro o Flamengo se enriqueceu justamente por ser o mais popular.
A forma como a torcida argentina e a brasileira lidam com os próprios jogadores ou vangloriam a história de seus times não poderia ser mais oposta. Para o Brasil, o futebol foi uma marca da novidade democrática: nem a política nem o comércio permitiam uma harmonia entre as classes mais óbvia do que o futebol. Para a Argentina, futebol está no sangue – não raro, literalmente: era o sobrenome europeu, a grife, o acesso às altas esferas, uma ligação ainda não totalmente perdida com a metrópole do outro lado do Atlântico.
O eterno rival do imaginário Argentino, portanto, não era exatamente o Brasil, visto como inferior, miscigenado e como um irmão mais velho e mais pobre: era com a Inglaterra, seu “pai esportivo”. Uma relação edipiana ou uma tentativa de ainda ser europeu à força, a Argentina olhava para longe e para cima.