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Por que admiramos Odisseu mentir? – Os bad boys da literatura

Os gregos descrevem uma inteligência que torna Odisseu mais perigoso do que Aquiles
por Flavio Morgenstern 8 min de leitura

Na Odisséia, o grande clássico de Homero, surpreendemo-nos ao assistir ao herói Odisseu mentindo, trapaceando, enganando e cometendo atos bem pouco “heróicos”, ao menos no sentido medieval do termo. Em um dos diálogos mais dramáticos do livro, flagramos Odisseu tendo a pachorra de mentir até para Atena, a deusa da sabedoria, que tanto lhe protegeu. Qual a inteligência aí? Podemos comparar com situações modernas. Na série de TV The Big Bang Theory, testemunhamos 4 nerds capazes de entender como transmutar elementos químicos estáveis em instáveis com colisão de prótons em um acelerador de partículas subatômicas, mas são incapazes de lidar com sua vizinha bonitona. Já na vida real, estamos acostumados a observar pessoas com carreiras brilhantes e conhecimentos avançados, mas que cometem erros grotescos, às vezes pela ausência de algo trivial, como notar que alguém está mentindo.

O que une todos estes fenômenos? Existe um conceito em grego para a inteligência que muito nos faz falta – e pode explicar desde o motivo para admirarmos alguns bad boys no cinema e na literatura até como pessoas inteligentes conseguem escorregar em erros tão bobos constantemente.

A mais recente tradução da Odisséia em inglês, de Emily Wilson, utilizada por Christopher Nolan para sua adaptação hollywoodiana, chamou atenção já na primeira linha: o narrador invoca a musa, pedindo para que ela o inspire a cantar sobre um homem “polytropos” (πολύτροπος) – que Emily Wilson, a primeira mulher a fazer tradução completa da Odisséia para o inglês, traduziu por “homem complicado”. No original grego, o “homem que tem muitos tropos”, na verdade, carrega referência às muitos caminhos das erranças de Odisseu, mas principalmente às diversas vias e subterfúgios de que o herói (que Wilson prefere acentuar como anti-herói) se vale para atingir seus objetivos. “Complicado”, é claro, além de exagerar no reducionismo, ainda traz um caráter fortemente negativo.

Outro epíteto (“apelido”) de Odisseu no poema é polymetis (πολυμήτις), uma das palavras mais interessantes da língua grega. Odisseu, então, é aquele que tem muita (polys) métis, ou seja, muitos ardis, muita astúcia, muitos subterfúgios, muitas artimanhas. Mas o que de fato significa essa palavra que Odisseu tem muito, métis, na língua grega – e por que admiramos um traço de Odisseu que nem sempre é tão louvável?

Métis é a inteligência que poderíamos chamar de “não-linear”. Não é a inteligência do conhecimento, da lógica, dos livros ou da matemática. Estas são inteligências das regras, dependendo de um mundo estável. A objetividade nos permite contemplar, explicar e demonstrar. Métis, essa inteligência que os primeiros versos da Odisséia destacam em seu protagonista, é uma inteligência nem sempre precisa, que possa ser explicada ou ensinada. É a inteligência da habilidade, da astúcia, da prudência – e também a de criar planos, de escapar pela tangente ou de atacar o inimigo onde ele não espera.

Imagine que você entrou em uma sala de reunião com desconhecidos mais poderosos do que você. Você pensa no que estão discutindo, nos nomes, nas planilhas e hierarquia. Outra pessoa, além disso, percebe em 3 segundos quem manda ali, quem está inquieto, quem finge mandar, quem está escondendo algo, quem está na defensiva e quem provavelmente vai mudar de lado. Esta é a métis. A inteligência da astúcia e da prudência. Quem tem métis são aquelas pessoas que “lêem” outras pessoas ou uma situação, às vezes rapidamente – enquanto outras pessoas com outras inteligências demoram a perceber suas vantagens e desvantagens, e quem pode lhes passar a perna.

Num dos trechos mais famosos do poema, Odisseu precisa singrar o mar e atravessar o perigosíssimo trecho onde ouvirá o canto das sereias – não as mulheres com rabo de peixe às quais estamos acostumados, que vêm da mitologia nórdica, mas mulheres com traços de pássaros canoros, sutis e encantadoras. Seu canto é tão poderoso que nunca nenhum marinheiro conseguiu ouvi-las e sobreviver. Certamente elas conseguem seduzir qualquer um que entre em seu domínio para guiar sua nau até elas, bater em seus rochedos e terminar devorado. O que elas cantam? Para saber isso, inscreva-se em nosso Clube de Leitura na Formação Senso Incomum, por ser algo que não está nas traduções de Homero. Mas Odisseu quer não apenas ser o primeiro a sobreviver: quer também ouvir tal “canto encantador”. Então, pede à sua tripulação que faça o contrário do que se faz em uma situação perigosa no mar: o capitão da nau, o próprio Odisseu, é amarrado no mastro com cordas pesadas pelas costas, como um reles prisioneiro, enquanto seus marinheiros entopem seus ouvidos com cera. Odisseu atravessa o mar das sereias sem encontrar a morte garantida.

Este é um traço de sua métis. Para sobreviver, Odisseu “engana” as sereias, ou ao menos subverte a dinâmica típica (e a hierarquia social) da situação para sair-se bem.

Métis, aliás, é uma inteligência que os gregos atribuem ao mar. Seres marítimos como eram, os aqueus (como os gregos são chamados nos poemas homéricos) estavam acostumados a um mundo móvel, em que o vento e as correntes mudam, tempestades são imprevistas e inimigos não estão uniformizados. Navegar não é conhecer regras, e sim a habilidade de mudar constantemente em relação ao próprio mar.

É este o sentido de uma frase de Fernando Pessoa, por seu heterônimo Alberto Caiero, que muitos citam sem entender: “Navegar é preciso, viver não é preciso”. É uma reinterpretação de um aforismo atribuído ao general romano Pompeu, que teria dito “Navigare necesse; vivere non est necesse”. Para Pompeu, navegar (e salvar Roma) era mais imperioso do que a preservação da vida individual. Já Fernando Pessoa não apenas diz que viver passivamente não é necessário, mas criar artisticamente é uma incumbência existencial: na verdade, a frase pode ser também fortemente interpretada no sentido de precisão. Navegar é impreciso. Viver, ao menos dentro da vida burguesa, já se pode viver sob regras prontas. Saindo de si para desbravar o mar – e a si próprio – é que escapamos às regras da vida convencional e estamos sozinhos diante da existência. Navegar não é apenas seguir um mapa.

Pense novamente nos nerds de The Big Bang Theory saindo dos livros de física e cruzando com a vizinha no corredor. Viver é impreciso.

A mesma diferença entre inteligências podemos perceber ao imaginar um biólogo e um caçador entrando em uma floresta. O primeiro conhece espécies, sabe classificá-las e descrever sua reprodução. O segundo olha para uma folha torta e diz que um javali passou por ali. É um tipo de conhecimento incorporado, que nem sempre é possível colocar em palavras. Aragorn, o ranger de O Senhor dos Anéis, salva os hobbits constantemente, embora não fosse o primeiro da turma nas aulas de ciclo de reprodução dos vegetais.

Aliás, quase todo grupo interessante na literatura reúne pessoas com qualidades e defeitos díspares: diálogos entre alguém com conhecimento dos livros e outro com conhecimento da vida (ou da navegação, que é uma espécie de “vida ao extremo”) gera cenas icônicas. A disputa dialética entre a habilidade e o conhecimento estanque.

É por isso que é difícil “ensinar” habilidades como a de um enxadrista (que nem sempre observa movimento por movimento), de um policial, de um piloto, de um lutador, de um político, de um jogador de poker ou de um cirurgião. A métis é associada a animais que sobrevivem pela adaptação, como raposas, corujas, polvos, lobos, camaleões e corvos. São os mestres de ambientes hostis.

Atena, na verdade, com seus olhos glaucos de coruja, não é exatamente a deusa da sabedoria no sentido que atribuímos ao termo hoje. Ela é a métis encarnada (ela não foi “nascida”, ela é o próprio cérebro de Zeus que saiu de sua cabeça). Por isso se identifica tanto com Odisseu, seu protegido em um mundo até fantasticamente perigoso. Odissseu, por sua vez, seja pelo discurso ou por ações, sabe lidar com a imprecisão e imprevisibilidade de um mundo de uma maneira que nos causa admiração. A força vence batalhas, mas a guerra muitas vezes é definida por métis. Como Odisseu, o inventor do cavalo de Tróia.

É por isso que, muitas vezes, temos admiração pelos bad boys da ficção. Está até na moda que séries retratem grupos de criminosos, ou homens de padrão moral cambiável (ou “complicado”, como destaca Emily Wilson), e que causem alguma estranha forma de simpatia: Breaking Bad, Peaky Blinders, Sons of Anarchy, Vikings, House of Cards, The Blacklist, Os Donos do Jogo, La Casa de Papel, Ozark. Mesmo personagens como o dr. House ou metade de Game of Thrones têm um charme justamente quando são indefensáveis.

Boa parte da atração se dá justamente quando os vemos com a métis em ação: ser industrioso, ter uma agudeza da mente e uma sagacidade diante de situações complexas é algo que causa um efeito até estético. Como não ficar de queixo caído com Daario Naharis, em Game of Thrones, que precisa vencer um duelo contra um adversário muito mais forte, e em vez de se proteger, escolhe ficar sem cavalo, desprotegido? É o que lhe permite atirar uma adaga não no inimigo, mas em seu cavalo. Nada honroso, mas uma velhacaria de dar inveja. Ou como não chamar de “obra de arte” a fuga espetacular de Hannibal Lecter da prisão em “O Silêncio dos Inocentes” – sem falar na última cena do filme? Claro que isto também exige uma gigantesca métis dos roteiristas. Por isso algumas séries ficam excelentes, e outras fracassam: nem sempre os roteiristas conseguem criar situações tão tensas a serem resolvidas da maneira mais inesperada possível.

Homero, que trouxe quase todos os temas pós-modernos da literatura para sua literatura arcaica, mostra Odisseu não exatamente como um bad boy, mas como alguém que admiramos pelo seu exagero de métis. Claro que a métis é uma potência, não uma virtude. Algo como uma ferramenta. Quando pensamos em heróis, tendemos a imaginar cavaleiros medievais, que têm a obrigação cristã de sujeitar todas as suas habilidades às virtudes cristãs. Um santo missionário como o padre Anchieta é alguém que transborda métis – um estelionatário como Alberto Youssef também. Além disso, da diplomacia ao marketing – onde quer que haja imprevisibilidade, aleatoriedade ou instabilidade – a métis é determinante para a sobrevivência.

Os gregos, portanto, não admiram Odisseu por mentir e enganar, e sim por utilizar corretamente (ou precisamente) a inteligência adequada para determinada situação.

A falta do conceito de métis de maneira curiosamente precisa nas línguas modernas reflete um problema do mundo de hoje: das regrinhas de conduta feministas aos gurus de “vida perfeita” no Instagram, a tendência da modernidade é moralizar imediatamente qualquer forma de astúcia, ou então, no outro extremo, admirar qualquer forma de manipulação. É uma confusão entre faculdade e finalidade. Uma das grandes vantagens da literatura sobre a filosofia é, justamente, mostrar a vida além dos manuais: se a filosofia é o mapa, a literatura é a navegação, onde nem todas as situações são moralmente distintas. Ou temos como não admirar quem escape de um sequestro conseguindo enfiar uma faca nas costas do sequestrador?

São Tomás de Aquino define bem que as faculdades devam ser utilizadas conforme sua finalidade. Um espião pode roubar segredos ou salvar vidas, tal como um missionário pode viver escondido para salvar cristãos perseguidos. Os gregos, senhores da civilização e dos mares, associaram a métis à imagem do navio: içar velas pode ser inútil ou perigoso quando não se sabe o destino – e o caminho. Marinheiros que singram para longe precisam, justamente, ter uma âncora, e não apenas boiar segundo o humor das correntes.

Odisseu nos encanta 3 milênios depois não por enganar, mas por saber que o mundo exige uma inteligência capaz de lidar com a contingência. Das ideologias ao moralismo exacerbado, perdemos a capacidade de transformar a métis em serva da virtude.

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