Ensaios de literatura, filosofia, cultura, geopolítica, poder e decadência da civilização ocidental.

Garrafa ao mar I: A Odisséia de Nolan e a de Homero

Nossa Carta do Editor analisa o impacto do maior fenômeno cultural do ano
por Flavio Morgenstern 5 min de leitura

O maior evento para a definição do Ocidente deste ano é a discussão sobre A Odisséia de Christopher Nolan. Qualquer pleito fica em segundo lugar. Nossa mente apressada tende a ignorar o médio prazo – ainda que o “médio” sejam apenas alguns meses – e nossa monomania moderna reduz toda a vastidão das experiências humanas às eleições, como se toda a existência tivesse seu zênite apertando alguns botões em uma urna a cada quatro anos.

Mas políticos vêm e vão. Nossos filhos podem lembrar-se deles quase como pensamos em Severino Cavalcanti ou Jânio Quadros. Já A Odisséia de Nolan deixará marcas profundas no imaginário – para o bem ou para o mal. Deveríamos discutir a nova adaptação cinematográfica calorosamente em cafés. Programas matutinos, vespertinos e noturnos convidariam especialistas para sabermos mais sobre o clássico que determinou o que é o Ocidente. Se é para brigar com amigos de décadas e arrumar cizânia na ceia de Natal, em vez de política partidária, que seja pelos aspectos, ainda que detalhistas, da Odisséia.

O filme de Nolan não terá o mesmo efeito de Tróia (2004) ou da Odisséia de Andrey Konchalovsky (1997) por não ser nem entretenimento simples, como o primeiro, nem uma obra cult como o segundo. Trata-se da forma como a cultura ocidental de massa interpreta seu mito fundador ao lado da Bíblia. Aquilo que considera bem e mal, seu molde para definir mocinhos e bandidos, o paradigma estético e moral (lembrando que a moral costuma vir muito mais da estética do que o contrário), a narrativa que determina, até em nível subconsciente, o que almejamos como sociedade. Trata-se do centro religioso do Ocidente moderno, Hollywood, filtrando a base da civilização.

Como nossas crianças são educadas 1% pela família e 99% por instituições artificiais e secundárias, hoje, é mister observar em minudências o que A Odisséia de Nolan trará para a próxima década – basicamente como saber o que os Beatles, Woodstock, Os Simpsons e a internet trouxeram às últimas gerações.

A escolha de tradução feminista de Emily Wilson, que gerou tanta controvérsia, deveria trazer novamente as discussões sobre tradução, tal como Santo Agostinho e São Jerônimo discutiram sobre traduzir a Bíblia no século IV – debate que acabou por definir nossa base religiosa e civilizacional. Pouco pode ser explicado em uma Carta do Editor, mas retratar Odisseu como um herói de guerra com stress pós-traumático, reproduzindo o velho roteiro épico da linha de produção fordista de Hollywood – o herói da Segunda Guerra – mostra que alguns clichês se entranharam tão profundamente em nosso imaginário que não conseguiremos nos livrar deles em poucos anos vindouros.

A Odisséia de Homero, bem ao contrário, fala de quase todos os temas que estamos discutindo no século XXI – e não poderia haver maior estranhamento do que uma adaptação do século XXI fugir de quase todos eles. Aquilo que o filme retrata como “lei de Zeus”, por exemplo, é a xenia (ξενία). Uma norma não-escrita (portanto, não-burocrática e nem determinada por uma autoridade sem representatividade e sem muito o que fazer) que determina como lidar com o estranho, o estrangeiro, o forasteiro, o viajante, o desconhecido. Em uma sociedade em que a força é a lei (e a força da natureza é mais forte do que os guerreiros mais valentes), ter bons costumes com o estrangeiro delimita onde está a civilização e a barbárie.

Nolan quase acerta ao explicar esta norma em uma entrevista. Apenas se esquece de que a xenia é uma via de mão dupla: um estrangeiro tampouco pode abusar de um anfitrião. 2026 é o ano da imigração em massa na Europa e nos EUA, da Copa do Mundo com seleções sem sobrenomes típicos dos países que representam e da torcida da Argentina provocando como sempre sabe provocar. Todos estes fenômenos são explicados por uma palavra que Homero entenderia: “xenofobia”. Mas parece demais custoso a Holywood – ou seja, à elite do poder global – entender que há também uma xenia exigida de quem adentra o seu palácio, come da sua comida, esbulha os seus bens e ainda pretende tomar sua esposa-rainha e expulsá-lo de seu trono.

Em vez de pensar no rapto de Helena, no Ciclope, nos pretendentes ou na destruição de Tróia pós-guerra como uma mera questão sentimental que cause traumas, existia uma norma, a tal “lei de Zeus” ou xenia, que exigia um comportamento adequado dos forasteiros ao se ancorar em terras que não são suas próprias. Todas as cenas exigiam uma xenia que foi conspurcada. Aliás, é como Odisseu escapa de Circe (no poema homérico, depois de um ano): o guerreiro provou que era um hóspede valioso, e exige a mesma xenia de Circe. O discurso feminista e pseudo-pacifista da feiticeira no filme simplesmente não funciona – que pacifista transforma qualquer desconhecido em porcos?

Com um imaginário manco, eventos extremamente complexos do mundo atual deixam de ser lidos com a força que um poema de quase 3 mil anos possui, para apenas se falar de termos imprecisos, como “xenofobia”, sem nunca se poder nem sequer mencionar que, talvez, as hordas de imigrantes muçulmanos desprezando os países nos quais chegam talvez, quem sabe, quiçá não estejam tendo um comportamento muito adequado diante de seus anfitriões. Pode ser que tentar implementar a shari’ah e costumes muçulmanos no centro de Londres ou Paris os faça parecer mais com os “pretendentes” de Penélope do que com as crianças atendidas pela Caritas Internationalis.

Como seria mais fácil discutir o futuro do Ocidente apenas conhecendo alguns termos gregos para interpretar alguns filmes...

Nolan ainda tem o mesmo defeito da elite brasileira – da Faria Lima aos burocratas de Brasília. Tudo é interpretado em termos exageradamente materiais, pragmáticos, calculados – a narrativa de um “trauma de guerra”, ainda que real, fica amputada de seu caráter sacrílego (nem a estátua de Atena decapitada adianta). A elite brasileira – e global – é profundamente rica, mas absurdamente sem base religiosa, civilizacional, cultural.

Se Odisseu tem dificuldade em voltar para sua casa e restaurar uma ordem que reconhecemos como a justa ordem, nossa elite não contribui em nada para restaurar algo que seja justo em nossa crise civilizacional: não possui religião nem noções estéticas basilares (sejam nossos prédios ou o gosto musical dos ricos), está tão órfã de passado quanto filhos de mãe solteira na periferia e seu conhecimento histórico vem mais de viagens do que de livros. Infelizmente, nossos ricos parecem que só lêem mais porque passam mais tempo em aviões. Mas nossa relação com uma ordem transcendente – aquilo que gera nossas crises e agruras materiais, sejam pessoais ou sociais – é assunto ultrapassado pelas pessoas que deveriam ter mais gosto, mais cultura, mais história.

Por isso resolvi retomar o projeto do Senso Incomum pensando no livro que mais estudei na faculdade, A Odisséia – estudar literatura na faculdade não dá quase dinheiro algum, mas enriquece com uma cultura muito mais interessante do que discutir eternamente engravatados chatos em Brasília. Escrevi dois artigos com alguns conceitos gregos fundantes – e bizarramente esquecidos em nossa modernidade.

Na nossa estante de literatura, reinauguramos nossos textos com o ensaio “Por que admiramos Odisseu mentir?”, sobre o conceito de métis – exatamente a inteligência de Odisseu. Uma inteligência que, quando reconhecemos, traz o estranho efeito de acabarmos admirando alguns personagens “vilões” em livros e séries – pense em Breaking Bad, La Casa de Papel, Sons of Anarchy ou Vikings.

Já na estante de filosofia, o artigo “Por que a política tornou a convivência impossível”, explica a palavra grega nousa inteligência que “vê”, que apreende imediatamente. O personagem “Antínoo” é justamente o que nega o que está fazendo. Eric Voegelin resgata a palavra aristotélica homonóia para explicar que nossas ideologias modernas não criam um nous comum – e querem substituí-lo por um pensamento planificado e concordância com autoridades, o que é justamente o contrário do conceito antigo. Ambos os artigos podem ajudar muito a enriquecer a leitura não só A Odisséia, como de nosso mundo atual.

A quem assistiu ao nosso encontro do Clube de Leitura da Formação Senso Incomum, no qual começamos a ler o grande clássico homérico, fica o convite: inscreva-se na Formação e continue nosso clube. Os encontros são sempre às quartas-feiras, a partir de agora às 19h30. Como seria mais fácil salvar o Ocidente se nos reuníssemos todos algumas horas por semana apenas para conversar sobre livros…

Ah, o nome “Carta do Editor” é facilmente reconhecível, mas sem personalidade. Chato. Exatamente do que fugimos. O título “Garrafa ao mar” manteve com muito mais brio nosso intuito de escrever em silêncio, e deixar que os mares conduzam em quem esta mensagem chegará. É o único jeito de usar a aleatoriedade das ondas e correntes momentâneas e a superfície das águas ao nosso favor.

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