Por que o Oriente Médio não fica no Oriente?
Abu Bark al-Baghdadi, o então líder do Estado Islâmico e um dos terroristas mais procurados do mundo, declarou, em um discurso de julho de 2014, na Grande Mesquita de al-Nuri, em Mosul, que o avanço do Estado Islâmico “não iria encerrar até colocarmos o último prego no caixão da conspiração Sykes-Picot”, como o principal objetivo do grupo, que pretendia reiniciar um califado islâmico na região. Do que raios este desgraçado estava falando?
A declaração não era nada enigmática para boa parte do Oriente Médio: al-Baghdadi, que ornava uma recompensa de US$ 25 milhões pela sua cabeça, queria reconfigurar, ou destruir, as divisões artificiais do Oriente Médio, impostas pelo Reino Unido e pela França num acordo secreto celebrado no meio da Primeira Guerra Mundial: o tratado Sykes-Picot, celebrado entre os diplomatas Mark Sykes, da Grã-Bretanha, e François Georges-Picot, da França. O Estado Islâmico reforçou a mensagem contra o acordo com o vídeo “The End of Sykes-Picot” em 2014, que mostrava tratores nivelando trechos da fronteira entre o Iraque e a Síria.
Mas o que foi a “conspiração” Sykes-Picot? Para a BBC, é o “acordo secreto que está na raiz de conflitos do Oriente Médio”. Para a DW, o acordo está “na origem do caos”. A New Yorker descreveu “como a maldição de Sykes-Picot ainda assombra o Oriente Médio”. A Al Jazeera explica “por que os árabes se ressentem de Sykes-Picot”. O Independent declara que “a Grã-Bretanha e a França estabeleceram as bases para o reino de terror do Estado Islâmico”. Já o Express o chama apenas de “linhas de sangue na areia”. Talvez seja importante conhecermos o que dois diplomatas na Primeira Guerra Mundial fizeram com uma das regiões mais instáveis do planeta – e onde sempre se pode esperar o risco de uma Terceira Guerra.
A região que chamamos de Oriente Médio nunca tinha sido assim designada – desde a Antiguidade, o nome “Ásia menor” era muito comum. Ao contrário do imaginário popular, é um pouco enganoso que a região sempre tenha sido um barril de pólvora prestes a estourar com o primeiro rastilho – apesar de muitas relações tensas, principalmente com as três principais religiões abraâmicas clamando a sacralidade dos mesmos lugares, a violência desmedida atual é fenômeno muito mais característico do último século. Era mais fácil imaginar odaliscas ao se pensar em Império Otomano nos séculos anteriores do que em terrorismo e burcas.
Um “Oriente Médio” que não é árabe
A maior parte da região que chamamos de Oriente Médio hoje, até a Primeira Guerra Mundial fazia parte do Império Otomano, que tinha os turcos otomanos como mandatários. Os turcos têm uma característica clara que gerava problemas: apesar de muçulmanos (em sua maioria), não são árabes – nem etnicamente, nem lingüisticamente. Boa parte dos turcos são etnicamente europeus – loiros de olhos azuis, inclusive, como muitos sabem pelas novelas turcas. Apesar de não ter uma confusão lingüística interna como o Império Austro-húngaro (que chegava a 11 línguas), justamente por conta do árabe, os turcos eram vistos como autoritários, anti-árabes e, o que foi sua ruína, confusos e com uma burocracia desesperadora. Desde a “discussão bizantina”, a fama lhes precedeu. Com a ascensão dos nacionalismos do século XIX, diversos tipos de nacionalismos árabes surgiram na região – inclusive tentativas de um pan-arabismo, que já foi disputado por lideranças como Yasser Arafat e Muammar Gaddafi.

Com a Primeira Guerra Mundial eclodindo na Europa, os impérios Austro-húngaro e Alemão (as “potências centrais”) ficaram sem aliados, enquanto as potências da Entente ainda podiam recrutar soldados de todas as suas colônias – o Canadá e a Austrália, usados como infantaria pela Inglaterra, entraram cedo em uma disputa sobre o destino da Bósnia, que nem sabiam direito o que era. O único grande império que ajudou os germânicos foi o otomano. Quem fazia a ponte com os germânicos era Mehmed V, cuidando militarmente de um Império já dividido entre a ocidentalização e a islamização, a modernização e a tradição e, mais grave, com tantas fraturas internas que muitos sabiam que poderia ruir sozinho.
Com dois anos de guerra, em 1916, os diplomatas Sykes e Picot fazem um acordo secreto, já presumindo o que fariam com as regiões árabes do Império quando vencessem o conflito. A divisão foi entre zonas de influência e também controles diretos da região. A França obteve controle direto sobre o que são hoje o Líbano e a Síria (duas regiões com muitos falantes de francês), enquanto o Reino Unido ficaria com a Mesopotâmia (hoje, principalmente a região do Iraque) e teria influência sobre o Egito e a Jordânia, além de acesso a portos importantes.
A Palestina, já alvo de tensão interna, disputas religiosas e o surgimento na Europa do movimento sionista (a fundação de um Estado judeu pela imigração de judeus da Europa para a Palestina), foi tratada como zona de administração internacional. Os russos deram apoio ao acordo pensando em conseguir alguma concorrência dos britânicos em relação às Índias.
Spoiler: de fato, as potências da Entente vencerão a Guerra, a Rússia sairá da Guerra após a Revolução Bolchevique, o Império Otomano deixará de existir (junto ao último califado, até o Estado Islâmico tentar impor outro) e a região vai virar uma bagunça extremamente violenta, onde todos se odeiam – não apenas árabes e judeus.
Uma marca do Oriente Médio moderno é seu mapa tão “retinho”. Fronteiras entre países, ainda mais numa área deserta, não costumam ser tão precisas. Tal se deu porque foi a divisão artificial das zonas de influência entre Inglaterra e França, ignorando diferenças culturais, religiosas, étnicas e lingüísticas.

Foi por conta dessa disputa colonial que a região passou a ser chamada de “Oriente Médio”, principalmente pelos britânicos. O “Império de Sol a Sol” criava nomenclaturas próprias para lidar com regiões distintas. A administração se centrava muito na jóia da Coroa: a Índia. Tudo passava por ela. A economia britânica (até hoje) é muito focada nas trocas com as Índias. Assim surge uma divisão britânica: China, Japão e Sudeste Asiático ficam no far east. Os Bálcãs e o lado europeu do Império Otomano no near east. A região entre ambos (sem distinção de nacionalidades, línguas e etnias) virou o middle east. Não que houvesse grande consenso sobre o que é o que.
Um pouco conhecido estrategista militar americano, Alfred Mahan (muito citado por Aleksandr Dugin), passa a utilizar a expressão middle east para sua teoria do poder marítimo (sea power), separando as nações marítimas das continentais. O objetivo é proteger a rota marítima para as Índias – rota que, das batalhas do estreito de Dardanelos na Primeira Guerra até a guerra entre Estados Unidos e Irã pelo estreito de Ormuz (sem falar na guerra pelo estreito de Suez), continua sendo foco de hipertensão global. "Oriente Médio" é o que está no meio do caminho para as Índias. Algumas coisas permanecem iguais entre as Grandes Navegações e a guerra contra o Irã.
Os territórios árabes, com o esfacelamento do Império Otomano, anseiam por independência. Além do território ser caminho para a Índia, algumas regiões logo vão descobrir outra moeda de troca poderosa, como os poços de petróleo descobertos nessa época na Mesopotâmia, no atual Iraque.
Diplomacia, a continuação da guerra por outros meios
Uma verdade meio óbvia só depois de explicada é que franceses e ingleses nunca se entenderam muito bem. Passaram um milênio em guerras constantes – portanto, não foi só devido às ambições imperialistas germânicas que passariam a ser aliados no século XX. Por um triz, a Inglaterra não entrou na Primeira Guerra do lado da Alemanha. Menos crível ainda é que as potências iriam realmente respeitar acordos feitos com o próprio mundo árabe.
A luta anticolonial tem matizes que passam rapidamente da comédia para a tragédia. A Alemanha, por exemplo, foi a maior promotora da luta anticolonial (antibritânica e antifrancesa) nas duas Guerras – Hitler, futuramente, seria um dos maiores promotores da causa do panarabismo e da expulsão de judeus da Palestina. Mas os britânicos também fomentaram lutas nacionalistas pensando no controle de regiões específicas contra outros nacioanalistas.
Um dos casos curiosos era do Emir de Meca, que, ainda durante a Primeira Guerra, prometia ajudar os britânicos criando conflitos com os otomanos enquanto os britânicos prometiam a ele a criação de um estado independente na Mesopotâmia gerido por sua família. Seu verdadeiro sobrenome era Houssein. Nem é preciso dizer que o choque com os franceses também era questão de tempo. Faisal Houssein, um dos filhos do grande Emir, fez uma campanha até a conquista de Damasco, criando um curto reino na Síria, até a chegada dos franceses em 1920.
O acordo Sykes-Picot também teve apoio do Império Russo czarista, que logo cairia em mãos bolcheviques. A rede de espiões de Trotsky publicou os termos do acordo em jornais moscovitas. O Ocidente ficou sabendo pelo jornal Guardian – o mesmo jornal que publicou os telegramas que mostram a tramóia para os Estados Unidos entrarem na Guerra, e que futuramente publicará os e-mails de Edward Snowden pelas mãos de Glenn Greenwald.
O fim da Segunda Guerra viu as linhas propostas pelo acordo já muito bem definidas, com um componente adicional: em 1917, também veio a declaração Balfour, com apoio diplomático e com quase toda a certeza financeiro da família Rothschild, prometendo um “lar nacional” para os judeus na Palestina – boa parte das colônias financiadas por Edmond James de Rothschild. É curioso pensar que, até meados da década de 70, “palestino” era um termo utilizado para os… judeus da região. Até o movimento pela criação de um novo estado “palestino”, agora pelo terrorismo, o termo se confunde, justamente por fazer menção a uma região, e não a um país ou um grupo com delimitação cultural, étnica, religiosa ou linguística própria.
Ao fim, é notório que a região inteira do Oriente Médio – isto sem falar em Arábia Saudita, um país de outra família, do Irã ou das regiões do Paquistão e Afeganistão, da al Qaeda e do talibã – ainda sofre justamente com o acordo que a definiu muito mais como uma região sem especificação – e movimentos anticoloniais, que simplesmente culpam as potências ocidentais ignorando os interesses espúrios de quem também lucrou muito criando ditaduras… anticoloniais.