A direita que existe hoje e a direita de 5 anos atrás são fenômenos estranhos, alienígenas um ao outro – em resumo, as duas direitas são verdadeiras inimigas entre si. O estranhamento no enredo é que, no mais das vezes, estamos falando dos mesmos personagens: pessoas que, em algum momento, orbitaram Olavo de Carvalho. Muitos esperavam tal fratricídio pela disputa de legado – ou mesmo por cargos ou ego. Mas aquele fenômeno amplamente debatido em artigos e livros da “direita” acabou por trilhar caminhos que a tornaram uma quimera incapaz de se olhar no espelho. Agora que o mestre não orienta rotas nem prioridades com as broncas e palavrões que lhe eram peculiares, a direita dividiu-se entre uma máquina robótica falando de eleições ou pessoas solitárias que preferem nem mais comentar política, tal o grau de policiamento do pensamento que tem de enfrentar internamente. Isto enquanto testemunha-se fenômenos esdrúxulos, como uma nova “direita” cujas pautas são todas… de esquerda, do nacionalismo estatista jeca até a parceria com o PT para destruir a Lava Jato.
Tenho por princípio de vida odiar textos em primeira pessoa. Mas, devido a também ser coadjuvante neste embrolho, vejo-me obrigado a abandonar temporariamente meu princípio estético e comentar a última década não como espectador, mas também como partícipe. Mesmo não desejando nem chegar perto do poder, tive de cruzar com poderosos e ladrões – nem sempre escapando com a carteira intacta. O próprio Olavo sempre desprezou textos “impessoais”, por recusar o efeito do plural majestático – falando a partir de um “nós” que quer nos incluir à força em alguma proposição indesejada e irrefletida, ou fugindo às responsabilidades infranqueáveis de nossas escolhas. A aversão de Olavo deriva de um texto aparentemente impessoal “permitir” ao sujeito descrever a situação como se fosse inexistente ou estivesse acima da história (e do bem e do mal). Plurais majestáticos, por outro lado, “nos” permitem também certa modéstia necessária. Nem sempre é o eu que importa, e ele está sempre implícito. Desta feita, porém, meu relato será também um testamento – que já me cobraram inúmeras vezes. Funciona praticamente como a continuação do meu livro, que tantos me cobraram.
Olavo de Carvalho nos deixou na madrugada de 24 de janeiro de 2022, após cerca de cinco anos extremamente conturbados em sua vida – que já havia sido tão conturbada ao ponto do irreproduzível. Como definiu Filipe Martins, Olavo era um hápax legómenon, um fenômeno que aparece uma única vez dentro de uma língua ou cultura. Trabalhou com jornalismo (científico e esotérico), astrologia, passou bons anos dentro da escola perenialista (os verdadeiros donos do mundo), foi perseguido por um gênio louco como Frithjof Schuon, descobriu o Foro de São Paulo em um trabalho para a Odebrecht e foi massacrado pelo establishment petista na mídia e Universidade. Mas nada disso parece ter sido páreo para os últimos cinco anos de sua vida, justamente quando o “velho da Virginia” tornou-se mainstream: era uma borrasca de ataques, polêmicas, enrascadas e alguns siricoticos públicos a cada meia hora que deixou nosso filósofo atordoado, triste e perdido. Adicione ainda o Facebook, que acabou prejudicando demais não apenas sua última tentativa de ter paz na Terra, mas obnubilou seu próprio legado intelectual.
Olavo de Carvalho teve muitos alunos – muitos deles com uma relação pouco harmoniosa com o mestre, anos depois. Além de (alguns de) seus alunos, seu maior legado era certamente o COF – Curso Online de Filosofia, no qual ensinava seus alunos não apenas uma história da filosofia com comentários, mas justamente a filosofar, analisando problemas com o respeito, denodo e tirocínio adequados. Em vez de iniciar os meandros filosóficos pela história, Olavo pensava por problemas, começando pela nossa própria situação concreta – como brasileiros no século XXI, falantes de português, em um ambiente político corrupto e uma cultura tão maltratada quanto ressentida. Nada mais socrático.
Para alguém que notava problemas fundamentais no mundo atual – como eu – e que também sabia que a última coisa que a faculdade parecia oferecer eram diagnósticos cirúrgicos e remédios eficientes para a maladie social e existencial – também como eu –, testemunhar como aquele homem abordava problemas extremamente complexos não com simplificações, mas com clareza em sua profundidade, era um bálsamo irresistível. Tornava-se fácil até mesmo tolerar o quanto Olavo desprezava autores que aprendemos a glorificar na faculdade, ou seu catolicismo para quem estava afogado na ortodoxia do ateísmo, ou mesmo alguns temas que Olavo parecia tratar com certa obsessão: eu sabia que Obama era ruim, mas seria tão ruim assim? (revendo tudo anos depois, a resposta é fácil: era bem pior.)
Não foi só comigo, óbvio. Mas o que aconteceu com as pessoas que buscavam no Olavo explicações mais ricas, pensamentos mais apurados e leituras aprofundadas hoje se assemelha mais à loucura do que à discordância entre amigos.
A verdade que precisamos confessar é que ninguém está resguardado da degradação da consciência que se tornou marca indelével dos nossos tempos. Por isso, é preciso entender como um movimento cultural, baseado em uma filosofia poderosa, foi reduzido à política partidária. Outro aspecto fundamental em uma mudança produzida na internet é entender o papel das redes sociais, que influenciaram demais o trabalho do próprio Olavo de Carvalho – e como a direita, que é tão baseada em passado e herança, pode lidar com algoritmos que não possuem um ontem. Precisamos entender por que trocamos estudo por notícias e intelectuais por influencers. Com um mapa de nossa situação podemos, talvez, pensar em um resgate da consciência e da imaginação.
Mapa da Jornada:
Junho de 2013: quando a massa resolveu ler Platão
O mínimo que você precisa saber sobre o impeachment
UFC Virginia: Olavo x Mark Zuckerberg
Lava Jato: nós não vencemos por um triz
Bolsonarismo e Olavismo
O legado disputado e esquecido
Os vendilhões do templo do Instagram
O povão populista: a pedagogia das tias do Zap
A nova nova direita: cancelamento de cérebros
Meu partido é o Brasil (quer dizer, o do Valdemar)